Nacional NHRA Indianapolis Raceway 2011

 

Todo muçulmano deve ir pelo menos uma vez na vida a Meca, cidade na Arábia Saudita onde fica o centro dessa religião Islâmica. Assim deveria ser para todos nós amantes da Arrancada, o dever de ir pelo menos uma vez aos EUA e ver uma prova de Drag Race da NHRA.

Nesse texto vou tentar dividir com vocês minhas experiências que vivi conhecendo um dos centros “sagrados” do automobilismo mundial e palco de uma das melhores provas da NHRA, o National NHRA Full Throttle.

A pista Lucas Oil Indianapolis Raceway é enorme, não existe comparação no Brasil para que eu possa dar uma idéia do tamanho desse enorme “parque de diversões”.

Nessa etapa que estive, a prova começou na terça-feira e foi até segunda feira da outra semana que era dia do trabalho nos EUA, agora imagine você ficar quase uma semana vendo, escutando e respirando o que mais gosta, realmente foi muito bom tudo isso...

Minha primeira impressão da pista já foi vendo as Arrancadas dos Nytro Funny Cars, e quem iria andar era o piloto Scott do Funny Amarelo patrocinado pela DHL, no burn out tudo normal, igualzinho aos que a gente está acostumado ver aqui. Mesmo barulho, mesma quantidade de fumaça e etc... Ai eu falei comigo mesmo, “Ahhh o pessoal aumenta muito as coisas e nem é tudo isso que falam”, ai o Funny Car vem de ré, e ao passar por mim já pude perceber que a quantidade de combustível que sai do escape sem queimar é absurda, só para dar uma idéia, a área de pré stage chega a ficar meio enevoado de tanto combustível solto no ar. Assim que o Funny para no pré stage, a equipe rapidamente abre a bolha e só mais tarde fiquei sabendo que era para destravar as borboletas, e para a mudança da linha de combustível de metanol que é usada somente para se fazer o burn out para o nitrometano que é usado para competir. Como eu não sabia nada disso, só pude observar que alguma coisa muito radical tinha sido feita debaixo daquela bolha aberta. O motor passou a trabalhar mais embolado e o ronco engrossou que até parecia ser outro motor, ai meu irmão eu já percebi que a coisa era mesmo diferente de tudo que eu já tinha visto.

Segurei a câmera com força e o que vi em seguida foi um estouro e aquela “coisa amarela” passou a milhão do seu lado mesmo eu estando a poucos metros de distância da largada. É muito brutal a evolução de velocidade da imobilidade até os 330 metros e a gravidade exercida no deslocamento inicial é de mais de 3G, tanto que alguns pilotos antes de largar ficam respirando oxigênio puro para evitar um desmaio na largada. Vocês devem estar perguntando e como ficou essa minha primeira foto, não consegui fazer a foto do carro, o susto foi tamanho que eu levantei a câmera na hora do disparo, imagem só do céu. E foram assim todas as primeiras largadas que acompanhei lá na pista, depois você vai se acostumando com as porradas sonoras e do deslocamento de ar, a tentação é a dúvida entre assistir e fotografar o show.

Falando em show, nos treinos tudo é mais calmo e civilizado, os carros arrancam e se acontecer de um deles distracionar mesmo com chances de se concertar a trajetória a puxada é abortada na hora, mas meu amigo quando chega as puxadas classificatórias dá até medo de ver a insanidade que é para chegar um na frente do outro, a puxada final parece duelo do velho oeste, é tudo ou nada, bem no estilo glória ou parede, ai você pode ter uma noção do que é ser um piloto dos carros mais potentes do planeta, quem está lá é porque é muito bom ou é doido mesmo.

Outra coisa interessante que eu gostaria de dividir com vocês é relacionado à brutalidade do combustível nitrometano, esse “explosivo liquido” é o responsável pelo derretimento de muitas peças. É muito comum os Dragsters que usam esse combustível chegar ao final da pista com pelo menos dois cilindros apagados por conta de velas derretidas, como se pode ver na foto 1007 de nossas galerias, que se pode notar jatos de combustível sem queimar nos últimos dois cilindros do Dragster que segue acelerando rumo aos 330 metros. Na foto 496 pode-se ver uma fagulha de vela derretida sendo expelida do lado esquerdo da foto, e não pense que é só vela que derrete. Anéis, pistões, válvulas, além de cabeçotes são peças sujeitas ao derretimento pelas calorias e explosões brutais que o nitrometano proporciona.

Saindo dos carros e falando dos pilotos, esses, por serem estrelas conhecidos mundialmente e por esses motivos eu tinha certo receio de ir falar com meus ídolos. Mas a vontade e a empolgação de estar no meio deles me fez chegar junto na maior cara de pau, para minha surpresa a maioria com poucas exceções foram super receptivos com minha abordagem de fã/fotógrafo, até Tony Schumacher (foto 1064) que eu imaginava que por ser militar seria mais complicado de se falar, me cumprimentou, falou comigo e apertou minha mão demonstrando uma enorme preocupação em agradar aqueles que vêem falar com ele. Nessa etapa a equipe Go Army de Tony estava estreando uma nova pintura que era uma homenagem as vítimas dos atentados de 11 de Setembro, e um dos militares que acompanham a equipe me disse que esse ano o chassis do carro de Tony era um novo modelo muito mais moderno e aerodinâmico e o cockpit era inspirado nos caças F-16.

A boa surpresa que para mim e que acabou virando uma das coisas mais importantes que me aconteceu nos EUA, foi a minha conversa com a lenda feminina da Arrancada Americana a ex piloto Shirley Muldon, que foi a primeira mulher a ganhar um título da NHRA na categoria Top Fuel. Shirley na sua época fez muito marmanjo comer poeira e por todos esses feitos foi convidada para estar em Indianapolis para receber uma homenagem e reconhecimento pela sua arrojada carreira no automobilismo americano.

Depois de quatro dias eu já tinha feito todas as fotos que precisava na pista e era hora de ir para as arquibancadas ver com era a visão lá de cima, além de estar no meio dos Americanos e ver como eles assistem as corridas, fui subindo as escadas e de cara um Americano olhou para mim e sorriu, e me disse: “Ohhh Big camera man”. Estava feito meu primeiro contato com o publico que gosta da mesma coisa que eu gosto, diferença de língua nem chegou a atrapalhar nossa conversa, quando ele não entendia meu “embromation” eu falar com as mãos, gesticulava e por mais incrível que pareça troquei o maior papo com o americano. Depois da conversa era hora de subir. Nessa arquibancada tanto faz você estar em baixo, no meio, ou em cima, você assiste as puxadas tranqüilo, o público é super consciencioso em não ficar na frente de ninguém e só levanta para ver melhor um acidente ou para aplaudir os pilotos que deram show de pilotagem na sua passagem. O povo americano vai para assistir porque ama aquilo, e é isso que importa, não existe xingamentos e hostilidades a nenhum piloto, muito menos as pessoas que estão assistindo, famílias na sua grande maioria. Uma coisa linda de se ver e que só contribui para fazer um espetáculo ainda mais bonito.

Nos boxes tem uma coisa interessante de se ver, que chega ser cômico. Quando um Dragster nitrometano liga todo mundo corre para ver bem de perto, igual formiga quando avança no açúcar, na primeira acelerada sobe aquela nuvem de metanol e você vê as pessoas saindo meio que correndo para se livrar do ardume que o metanol causa nos olhos e nos pulmões, realmente é um Deus nos acuda... Outra coisa muito legal são as lojas de produtos relacionados ao evento, pode-se encontrar de tudo ali, desde vestuário a souvenir dos mais variados tipos. Complicado é ter dinheiro para comprar tudo que quer, e se esse não for o problema, tenha cuidado para não exceder o peso da bagagem na volta para o Brasil.

Para concluir posso afirmar que essa minha primeira experiência foi magnífica e vou me lembrar dessa viagem o resto da minha vida. Foram 15 dias onde pude conhecer duas das melhores pistas de Drag Race dos EUA, falei com os pilotos, com as lendas vivas da Arrancada que admiro, vi bem de pertinho as máquinas mais velozes do mundo, tive o privilégio de fazer parte do publico de mais de 30.000 pessoas que como eu, vimos as disputas dos melhores pilotos de Arrancada do mundo, foi maravilhoso, só posso dizer que ficou a vontade de quero mais, que venha 2012!!!
 

Texto e fotos: Murilo Braz
 

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